domingo, 26 de abril de 2009

Não sobre nós

E de repente você tirou todas as suas roupas do armário, mas o seu cheiro ficou. Nas minhas roupas, no quarto, na casa toda, no carro. Por tempos escolhi a roupa que cheirava mais a você para usar, usei o seu sabonete preferido e o seu perfume...
Agora não sinto mais seu cheiro. Minhas roupas têm o cheiro de um perfume doce que não é o seu. Será o meu? O travesseiro não cheira mais a você, o carro agora cheira a cigarro, meus pés a noite ficam muito frios e não tenho mais aquele abraço só seu durante uma peça.
Pensar em você me fez chorar durante semanas.Só de cheirar seu perfume tenho enjôo. Pensar que você não pensa mais em cuidar de mim, para cuidar de outras me fez querer morrer. Elas não conhecem seu corpo, não sabem do seu cheiro como eu, seu cheiro quando acorda, quando está puto, quando tomamos banho juntos ou quando vamos à uma festa.
Quando o a dois morre, não existe amor póstumo. O amor não se auto alimenta, ele precisa ser cuidado, respeitado, e se não é, deixa de existir no mesmo segundo. Não existe "amor a um" , é impossível. O que existe e aumenta depois é a saudade (por incrível que pareça), a auto piedade e o auto flagelo. É bom sofrer, chorar, faz a gente se sentir real, vivo, nos leva a lugares novos, a pensamentos novos. É bom sentir, seja o que for para ser sentido no momento, porque tudo que sentimos fica, embaixo da pele, na memória, no peito.
Então... Sê bem vinda experiência. Sê bem vinda vida.
Lavar a louça de uma só pessoa é um choque, um só copo, um só prato, mas é mais rápido, e de repente, quando nos damos conta estamos lavando a louça de dez pessoas, amigos queridos, novos.
As nossas roupas mudam, o cheiro da casa muda, o sabonete acaba e o perfume fica atrás na estante. O que não muda é o aqui dentro. O aqui dentro ainda faz chorar, ainda dói, mas ele serve pra lembrar que, pelo menos nós vivemos, e, no fundo sabemos que um dia ele não será tão triste, porque ele já foi muito feliz e nada o impede de voltar a ser.
Então por que merda eu quero o carinho de quem não quer me dar e rejeito o de quem quer?
Porque a vida é muito louca e tudo tem seu tempo...
Não sobre o amor, meu amor, meu pequeno sofrimento, meu grande desabafo.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Por um acaso

Wislawa Szymborska


Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho.
Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em conseqüência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.
...

















Auto-explicativa.
Sua, minha, nossa talvez, é.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

de(s)apego

E eu sinto atrás dos olhos
nas maçãs do rosto
no maxilar
em todo o crânio
na nuca
nas pontas dos dedos
e atrás dos joelhos
essa vontade que cresce...
e passa.