sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, no tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. No rabo. O que é que você queria? Rendas brancas imaculadas? Será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor? Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual. O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria merda. E depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. Porque então você se ama também.


Caio Fernando Abreu.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

contra.dicção

Páginas em branco não são mais suportáveis.
Quando não escrevo, não sinto. Será? Finjo...

Sinto tudo, todo o tempo.
Sinto falta.
Sinto cheiro.
Sinto vontade.
Sinto indiferença.
Sinto muito.

Por nós, por mim.

Estamos bem.
Estamos bem nos três centímetros de distância entre nossas bocas.
Estamos bem no ar quente entre nós quando deitamos no mesmo travesseiro.
Estamos bem quando coloco minha boca exatamente no mesmo lugar que você colocou a sua bebendo aquele copo de whisky.
Estamos bem quando fumamos o mesmo cigarro.
Estamos bem quando aplaudimos a mesma peça.
Estamos bem quando anoitece, quando amanhece.
Estamos bem quando estamos juntos. Quando ocupamos a mesma cama.
Estamos bem em teoria.
Mas ainda há falta.
Que não será preenchida por nós.
Estes dois corpos, estas duas mentes não são capazes.
Não podem ou não querem.
Talvez nem devam.

Eu poderia estar sem você, mas não quero. Será? Finjo...

Quero você, todo o tempo.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

SUBMUNDO

Entre prosas e versos,
Entre risos e distonias,
Entre cortes e recortes,
Sonhos e utopias,
Realidade e anarquia,
Impunidade e analogia,
Revolta e lucidez,
Liberdade e embriaguez,
No submundo
Do meu,
Do teu,
Do nosso mundo,
Exista um tempo...
Talvez.


Aglaure Corrêa Martins

sábado, 11 de julho de 2009

Quando é sabido que o bom vai acabar...

Parem todos os relógios e calendários.
Perpetuem o frio, a madrugada, o abraço, o fernet, o cigarro e nós.

"Hay, recuerdos que no voy a borrar
Personas que no voy a olvidar
Hay, aromas que me quiero llevar
Silencios que prefiero callar
Son dos, las caras de la luna son dos
Prefiero que sigamos, mi amor, presos de este sol
Dejar, amar, llorar,
El tiempo nos ayuda a olvidar
Y allá, el tiempo que me lleva hacia allá
El tiempo es un efecto fugaz
Y hay cosas que no voy a olvidar
La noche que dejaste de actuar
Sólo para darme amor
Hay secretos en el fondo del mar
Personas que me quiero llevar
Aromas que no voy a olvidar
Silencios que prefiero callar
Mientras vos jugás."

Brillante Sobre El Mic
Fito Paez

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Deste lado.

Se eu bebo destilado é porque do outro está você. E não consigo te encarar. Não consigo me encarar. Acordei já de noite e preferia não ter acordado.
Você me pergunta e eu respondo que é porque destilado estou eu. Você não vê? Ou não quer? Tô aqui, te pedindo paciência. Pedindo que você fale claro comigo porque eu não falo claro com você. E nem sei como.
Já é de noite e preferia não ter acordado.

terça-feira, 2 de junho de 2009

E você acorda para um novo dia. Que está lindo por sinal, frio com um sol que te esquenta enquanto você anda no mesmo cenário de todas as manhãs, com o mesmo café e o mesmo cigarro nas (mesmas :P) mãos. E então você lê: "Tá estressado? Massagem relaxante! Mix estimulante! Ligue já!" e pensa: "Você acha que o toque de um estranho que quer meu dinheiro vai me relaxar? MIX ESTIMULANTE??? Hahaha. O que é estímulo para você?"
Pra mim, muitas vezes tem a ver com pele. Outras vezes com cheiros, cores, gente de bem, idéias, sensações. Nada programado ou agendado, nada com óleo de amêndoas vencido esperando um cheque no final dos 50 minutos (ok, algumas vezes até tem a ver um pouquinho com óleo de amêndoas).
Estímulo é outra coisa... tá nas situações, nos olhares, na lua, naquela pessoa.
Ele não pode ser forçado. Não pode!
Você sabe...

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Um pouco mais de Sylvia. Uma amiga quase.

"(...) os indivíduos constroem Reinos de fantasia absolutamente reais - paradoxalmente, todos “verdadeiros”, embora simultânea e mutuamente exclusivos. Minha bolha-fantástica de realidade existe lado a lado com as deles, sem que se rompam em fragmentos distanciados. Vivemos e circulamos juntos no mundo da experiência concreta, harmoniosamente, motivados e impelidos por nossas próprias fantasias de realidade."

"Caro Doutor: Sinto-me muito doente. Há um ponto em meu estômago que lateja e incomoda. Repentinamente os rituais simples do dia empacam feito cavalo teimoso. Torna-se impossível fitar as pessoas nos olhos. (...) Conversas banais são desesperadoras.
(...)
Tão irônico: incorporo o eu poético de personagens que cometem suicídio, adultério, ou são assassinados, e acredito plenamente neles, por algum tempo. O que dizem é a Verdade."

"Sinto-me deprimida pela exposição a tantas vidas, muitas delas excitantes, novidades em meu espectro de experiências. Passo pelas pessoas, esbarrando nelas superficialmente, e isso me incomoda. Preciso admirá-las para gostar de verdade delas, profundamente."

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Carta Aberta ao Ministério da Cultura na ocupação da Funarte pelo Movimento 27 de Março, exigindo um diálogo democrático e honesto.

CARTA ABERTA AO MINISTÉRIO DA CULTURA

Hoje, no Dia Mundial do Teatro, nós, trabalhadores de grupos teatrais de São Paulo organizados no Movimento 27 de Março, somos obrigados a ocupar as dependências da Funarte na cidade. A atitude extrema é provocada pelo falso diálogo proposto pelo governo federal, que teima em nos usar num debate de mão única. Cobramos, ao contrário, o diálogo honesto e democrático que nos tem sido negado.

O governo impõe um único programa: a transferência de recursos públicos para o marketing privado, o que não contempla a cultura mas grandes empresas que não fazem cultura. E se recusa, sistematicamente, a discutir qualquer outra alternativa.

Trocando em miúdos.

O Profic - Programa de Fomento e Incentivo à Cultura, que Vv. Ss. apresentam para discussão como substituto ao Pronac, que já existe, sustenta-se sobre a mesma coisa: Fundo Nacional de Cultura - FNC, patrocínios privados com dinheiro público (o tal incentivo/renúncia fiscal que todos conhecem como Lei Rouanet) e Ficart - Fundo de Investimento Cultural e Artístico.

Ora, o Fundo não é um programa, é um instrumento contábil para a ação dos governos. Já o Ficart (um fundo de aplicação financeira) e o incentivo fiscal destinam-se ao mercado, não à cultura. O escândalo maior está na manutenção da renúncia/incentivo fiscal, a chamada Lei Rouanet, que o governo, empresas e mídia teimam em defender e manter.

O que é a renúncia ou incentivo fiscal? É Imposto de Renda, dinheiro público que o governo entrega aos gerentes de marketing das grandes empresas. Destina-se ao marketing das mesmas e não à cultura. É o discurso que atrela a cultura ao mercado que permite esse desvio absurdo: o dinheiro público vai para o negócio privado que não produz cultura e o governo transfere suas funções para o gerente da grande corporação. Diminuir a porcentagem dessa transferência ou criar normas pretensamente moralizadoras não muda a natureza do roubo e da omissão do governante no exercício de suas obrigações constitucionais. Não se trata de maquiar a Lei Rouanet (incentivo fiscal); trata-se de acabar com ela em nome da cultura, do direito e do interesse público, garantindo-se que o mesmo dinheiro seja aplicado diretamente na cultura de forma pública e democrática.

Assim, dentro do Profic, apenas a renúncia fiscal pode se apresentar como programa, um programa de transferência de recursos públicos para o marketing privado, em nome do incentivo ao mercado. Trata-se, portanto, de um programa único que não vê e não permite outra saída, daí ser totalitário, autoritário, anti-democrático na sua essência.

E é o mesmo e velho programa que teima em mercantilizar, em transformar em mercadoria todas as atividades humanas, inclusive a cultura, a saúde e a educação, por exemplo. Não é por acaso que os mesmos gestores do capital ocupam os lugares chaves na máquina estatal da União, dos Estados e Municípios, coisas que conhecemos bem de perto em nosso Estado e capital, seus pretensos opositores.

E esse discurso único não se impõe apenas à política cultural. É ele que confunde uma política para a agrícultura com dinheiro para o agronegócio; que centra a política urbana na construção habitacional a cargo das grandes construtoras; e outra coisa não fazem os gestores do Banco Central que não seja garantir o lucro dos bancos. Não há saída, não há outra alternativa, os senhores continuam dizendo, mesmo com o mercado falido, com a crise do capital obrigando-os a raspar o Tesouro Público no mundo todo para salvar a tal competência mercantil.

Pois bem, senhores, apesar do mercado, nós existimos. Somos nós que fazemos teatro, mas estamos condenados: não queremos e não podemos fabricar lucros. Não é essa a nossa função, não é esse o papel do teatro ou da cultura. Nós produzimos linguagens, alimentamos o imaginário e sonhos do que muitos chamam de povo ou nação; nós trabalhamos com o humano e a construção da humanidade. E isso não cabe em seu estreito mundo mercantil, em sua Lei Rouanet e seu programa único.

Nós somos a prova de que outro conceito de produtividade existe. Os senhores continuarão a tratar o Estado e a coisa pública apenas como assuntos privados e mercantis? Continuarão a negar nosso trabalho e existência? Continuarão a negar a arte ou a cultura que não se resumem a produtos de consumo?

Por isso, além do FNC, exigimos uma política pública para a cultura que contemple vários programas (e não um único discurso mercantil), com recursos orçamentários e regras democráticas, estabelecidos em lei como política de Estado para que todos os governos cumpram seu papel de Poder Executivo.

É esse diálogo que os Senhores se negam, sistematicamente, a fazer enquanto se dizem abertos ao debate. Debate do quê? Do incentivo fiscal. Mas nos recusamos a compartilhar qualquer discussão para maquiar a fraude chamada Lei Rouanet.

Queremos discutir o Fundo. Mas queremos, também, discutir outros programas e oferecemos, novamente, o projeto de criação do Prêmio Teatro Brasileiro como um ponto de partida. Os Senhores estão abertos a este diálogo?

Movimento 27 de Março

São Paulo, Dia Mundial do Teatro e do Circo

Carta Aberta ao Presidente Lula e ao Ministro da Cultura Juca Ferreira

Ilustríssimos Senhores

Nos últimos seis anos do vosso governo constatamos que não houve nenhum avanço na criação e no desenvolvimento de políticas públicas, democráticas, transparentes e descentralizadas para as artes no país, apesar dos Programas de Cultura do Partido dos Trabalhadores, que apontavam para um novo modelo gestor, de entendimento da Questão Cultural e que serviram de base para as diferentes campanhas políticas até a eleição do atual governo. E isso frustra a categoria, dadas as expectativas geradas pela vossa eleição e o modelo exemplar que ele poderia representar para as políticas públicas estaduais e municipais por todo o país.

Pensávamos, há seis anos, que um momento mais fértil para a cultura e para o país havia chegado, pois o governo empossado, recebendo o mandato de milhões de trabalhadores para atender às reivindicações mais sentidas do povo brasileiro, iria lutar por instrumentos de inclusão e cidadania e entendia a cultura como um bem inalienável do cidadão, um direito de todos e de cada um, tão importante quanto a saúde, o transporte e a educação.

Pensávamos, há seis anos, que haveria uma possibilidade do Estado servir aos interesses da maioria do povo brasileiro em contraponto às idéias neoliberais de um estado mínimo e à base do programa do governo que vos antecedeu. Mas não foi o que aconteceu.

E por não avançar este governo retrocedeu!

Hoje, no ano de 2009, a crise escancara nossos portões e o vosso governo, com seus recursos acumulados em superávits fiscais, corre para socorrer os grandes grupos econômicos e, mais um vez, deixa para a maioria da população o desemprego, a falta de assistência médica, uma educação insuficiente e uma cultura entregue à indústria do entretenimento. Uma indústria que nada mais visa além do lucro e que transforma a cultura e as artes em produtos sem valor além do consumo imediato, sem poesia e sem reflexão sobre o que somos como cidadãos e como sociedade. Ou seja, sem perspectiva de futuro para além das necessidades básicas de sobrevivência – trabalhar para sobreviver e fazer a máquina econômica girar.

Nós, trabalhadores do teatro e das artes, vos dirigimos esta carta para pedir o que parece impossível, mas esta é uma tarefa que nos cabe – pedir o impossível! Não nos incomodamos com isso, afinal nos diziam que era impossível um operário chegar à presidência da república. Entretanto do que adianta fazer acontecer o “impossível” para depois tudo continuar como antes?

Pedimos que o Estado Brasileiro, que vosso governo no tempo que ainda resta, se ocupe da coisa pública, e aja para o desenvolvimento e proteção de seus cidadãos. E que pense no futuro do nosso país para além de um grande mercado consumidor, um grande canavial, um grande pátio de estacionamento para as montadoras.

Por isso nós trabalhadores do teatro conclamamos o atual governo a dizer um basta à política de privilégios, à entrega do Estado à iniciativa privada, à perda dos direitos dos trabalhadores e ao fisiologismo político que trata as questões da soberania nacional como uma bolsa de valores sem nenhum outro horizonte a não ser luta pelo poder.

E através desta carta reivindicamos:

- O fim da lei de isenção fiscal para a cultura.

- A criação de um Fundo Público para a Cultura, através de Lei.

- Que ele seja o responsável pela implementação de políticas públicas para todas as áreas da cultura.

- Que ele opere através de editais públicos em todas as regiões do Brasil com a participação paritária, em suas comissões de seleção, de representantes escolhidos pelo governo e pelos participantes dos respectivos editais.

- Que este fundo tenha uma dotação orçamentária mínima anual definida pela lei, e que portanto esta lei seja encaminhado pelo poder executivo como um projeto de governo.

- A imediata implantação do projeto “Prêmio Teatro Brasileiro” sob a forma de um edital nacional ainda para o ano de 2009.

- O descongelamento dos 75% do orçamento da união para o Ministério da Cultura. E um aporte de verbas suplementar para que ele atinja o mínimo de 2% do orçamento geral da União.

Pela nossa experiência dos últimos anos constatamos e entendemos que qualquer lei para a cultura tem necessariamente que contar com uma dotação orçamentária própria (recursos garantidos pela lei), pois isso evita a manipulação política e o corte indiscriminado destes recursos decorrentes de negociações políticas escusas (o balcão de negócios em que a política tem se transformado) e da ignorância por parte dos políticos de plantão sobre a importância que a cultura e as artes têm no desenvolvimento da real cidadania.

Sr. Presidente e Sr. Ministro, a luta por políticas públicas para a cultura é a luta pela soberania nacional e pela construção de um país de cidadãos livres no pensar e no agir.

As reivindicações feitas neste documento são de interesse público e a “Lei de Fomento para o Teatro Brasileiro” é fruto do amadurecimento de muitos anos de estudos sobre o que é realmente uma política cultural de interesse público para o cidadão. Hoje nos colocamos em luta por isso, pois acreditamos que com nossa luta possamos conquistar o impossível.

Assinado: Movimento 27 de março

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Splatheando.

"Quanto de minha solicitude por outros seres humanos é real e sincera, quanto é uma camada de falso verniz passado pela sociedade eu não sei. Tenho medo de me encarar. Esta noite tento fazer isso. Desejo de todo o coração que houvesse um conhecimento absoluto, uma pessoa em quem pudesse confiar para me aliviar e dizer a verdade."

Contradição.
Contra.dicção.

Sobri.edade

Ninguém é obrigado a respeitar o que sentimos.
É duro, mas é real. Só a gente pode cuidar da gente.
Não esperemos por ninguém.
Se eu te respeito, é poqrue quero, e se já te respeitei foi porque quis. Não espero o mesmo de volta. É verdade que eu esperava, mas ultimamente os fatos tem me mostrado que não acontecerá, e que esse não é você. Escrevo sem parar sobre isso, porque quando escrevo me confundo.
Enquanto escrevo, quem sou eu? Tenho problemas com a primeira pessoa. Quem escreve aqui? Quem me olha no espelho? Quem anda com minhas pernas? Quem sente tudo o que é sentido dentro deste pequeno corpo?
Enquanto escrevo, sou mãos digitando, sou lágrimas saindo, sou joelhos tremendo.
Enquanto escrevo não te quero, quero a poesia. Enquanto escrevo este cansaço físico da tristeza aos poucos desaparece. É tão necessário quanto o pão para o corpo. É tão, tão necessário...

domingo, 3 de maio de 2009

A verdade sobre a verdade é que a verdade dói.

domingo, 26 de abril de 2009

Não sobre nós

E de repente você tirou todas as suas roupas do armário, mas o seu cheiro ficou. Nas minhas roupas, no quarto, na casa toda, no carro. Por tempos escolhi a roupa que cheirava mais a você para usar, usei o seu sabonete preferido e o seu perfume...
Agora não sinto mais seu cheiro. Minhas roupas têm o cheiro de um perfume doce que não é o seu. Será o meu? O travesseiro não cheira mais a você, o carro agora cheira a cigarro, meus pés a noite ficam muito frios e não tenho mais aquele abraço só seu durante uma peça.
Pensar em você me fez chorar durante semanas.Só de cheirar seu perfume tenho enjôo. Pensar que você não pensa mais em cuidar de mim, para cuidar de outras me fez querer morrer. Elas não conhecem seu corpo, não sabem do seu cheiro como eu, seu cheiro quando acorda, quando está puto, quando tomamos banho juntos ou quando vamos à uma festa.
Quando o a dois morre, não existe amor póstumo. O amor não se auto alimenta, ele precisa ser cuidado, respeitado, e se não é, deixa de existir no mesmo segundo. Não existe "amor a um" , é impossível. O que existe e aumenta depois é a saudade (por incrível que pareça), a auto piedade e o auto flagelo. É bom sofrer, chorar, faz a gente se sentir real, vivo, nos leva a lugares novos, a pensamentos novos. É bom sentir, seja o que for para ser sentido no momento, porque tudo que sentimos fica, embaixo da pele, na memória, no peito.
Então... Sê bem vinda experiência. Sê bem vinda vida.
Lavar a louça de uma só pessoa é um choque, um só copo, um só prato, mas é mais rápido, e de repente, quando nos damos conta estamos lavando a louça de dez pessoas, amigos queridos, novos.
As nossas roupas mudam, o cheiro da casa muda, o sabonete acaba e o perfume fica atrás na estante. O que não muda é o aqui dentro. O aqui dentro ainda faz chorar, ainda dói, mas ele serve pra lembrar que, pelo menos nós vivemos, e, no fundo sabemos que um dia ele não será tão triste, porque ele já foi muito feliz e nada o impede de voltar a ser.
Então por que merda eu quero o carinho de quem não quer me dar e rejeito o de quem quer?
Porque a vida é muito louca e tudo tem seu tempo...
Não sobre o amor, meu amor, meu pequeno sofrimento, meu grande desabafo.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Por um acaso

Wislawa Szymborska


Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho.
Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em conseqüência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.
...

















Auto-explicativa.
Sua, minha, nossa talvez, é.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

de(s)apego

E eu sinto atrás dos olhos
nas maçãs do rosto
no maxilar
em todo o crânio
na nuca
nas pontas dos dedos
e atrás dos joelhos
essa vontade que cresce...
e passa.

terça-feira, 31 de março de 2009

Res.piração

O Corpo tem suas razões
T. Bertherat

"Mas por que perdemos nosso ritmo respiratório natural? Desde pequenos, cortamos a respiração quando temos medo, ou quando nos machucamos. Mais tarde, prendemos a respiração quando tentamos não chorar ou gritar. Acabamos só respirando quando queremos exprimir alívio ou quando 'temos tempo'.
Respirar superficialmente, irregularmente, torna-se o meio mais eficaz de nos dominarmos, de não termos mais sensações. Uma respiração que não chega a nos oxigenar bastante faz com que o trabalho dos órgãos vá perdendo a velocidade, reduzindo nossas possibilidades de experiência sensorial e emotiva. Assim, acabamos 'bancando o morto', como se nossa maior preocupação fosse a de sobreviver até que o perigo - viver - tenha passado. Triste paradoxo. Sinistra armadilha da qual não procuramos escapar, porque não temos consciência de estarmos presos. "

sexta-feira, 27 de março de 2009

Caminhescendo.

Caminhar, caminhar, caminhar.
Só caminhar.
Caminhar só.
Pra que lado?
Dá pra voltar?
Mas quando foi que a caminhada começou mesmo?
Ou melhor, quando foi que ela mudou tanto?
Não lembro de ter celebrado a chegada dessa nova caminhada.
Não se parece em nada com ano velho e ano novo.
Nem com um aniversário.
Honestamente, nem parece um caminho isso.
Os caminhos têm luz!
Esse aqui só têm os relevos de um corrimão arrancado.
Quando foi que tudo mudou mesmo?
Eu sei que as coisas mudam porque mudam.
Isso acontece, já ouvi falar, mas...

- Vai´nfeliz, caminhesce!

quinta-feira, 26 de março de 2009

Eu sei, mas não devia

Marina Colassanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender cedo a luz.
E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias de água potável.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se a praia está contaminada a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto se acostumar, se perde de si mesma.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Pára?

Vento. Chuva. Madrugada. Sonhos. Maus sonhos. Pensamentos. Idéias. Conversas. Barulhos. Gritos. Vozes. Dores. Ânsias. Rasgos. Mudanças. Luto. Perda da imagem. Respeito perdido. Vontades tampadas. Falsidade. Brigas. Respostas Vagas...

-Pararão?
-Pára não!
-Não? Pááára!


"Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha", disse o Estudante. "Eis aqui a rosa mais vermelha do mundo. Tu a usarás junto ao teu coração, e quando dançarmos ela te dirá quanto te amo."
Porém a moça franziu a testa.
"Creio que não vai combinar com meu vestido", respondeu ela, "e além disso, o sobrinho do Tesoureiro enviou-me jóias de verdade, e todo mundo sabe que as jóias custam muito mais do que as flores"

(Trecho de "O Rouxinol e a Rosa" de O. Wilde)

Está em todos os lugares...

domingo, 22 de março de 2009

Afff(eto)

O incenso, a luz baixa e o álcool dão o clima. Dois corpos que parecem intimamente conectados fazem uma pequena sombra no chão, ao olhar vejo que só uma figura é formada e então paro, um pouco aterrorizada, confesso.
- Não conheço você, não conheço realmente. Eu não saberia dizer quais são seus sonhos, seus medos, vontades, manhas e aposto que você também não saberia nada de mim.
Pausa longa.
Durante a mesma, um turbilhão de coisas passam pela minha cabeça e volto a confirmar que o problema é maior.
Por que não posso me contentar com o pouco que as pessoas me dão? E por que acho que é pouco? Será que sou a última inconformada?
Eu não quero só um olhar cansado naquela multidão da Sé às 6:30 da manhã, quero saber quem é você e porque está assim hoje. Não quero só um 'boa tarde' ao passar pela portaria, quero saber se sua filha está bem e te contar o que acabou de acontecer comigo na rua.
Quero conhecer!
Conhecer de verdade. Trocar, saber, contar, ouvir, me interessar, ser interessante, recolher o máximo de vida de cada um e guardar em mim com muito carinho.
Só assim talvez eu me sentiria real.
Qual é a graça de passar todos os dias pelas pessoas e não achar que estamos caminhando todos juntos e, o que é tão incrível, de formas tão variadas? Qual é a graça do não contato? Por que é tão difícil a aproximação?
Voltando da pausa e dos meus pensamentos distantes da situação, tento uma conversa, mas eu diria que foi mais um monólogo final de alguma peça muito ruim.
- Quero que, pelo menos você, queira me conhecer de verdade, não só saber algumas coisas, mas que queira me conhecer da mesma forma que eu quero. Que seja interessante para nós, que adicione, que façamos, digamos, leiamos, vejamos coisas reais, que nos encham de vida, de outras vidas que se misturem com as nossas até o ponto em que não saibamos mais distinguir o que era nosso e o que nos foi doado...
Vejo então uma enorme cara de espanto, interrogação, não sei definir bem, só sei que as pernas ficaram curtas para a saída, ou melhor, fuga rápida e desajeitada.
Acontece...

segunda-feira, 16 de março de 2009

Vô cessá Bi.

Os diários de Sylvia P.
Trad. Celso Nogueira


E há momentos nos quais você se sente muito sábia, superando a idade. Toma sol nas pedras, a água bate nos seus pés quando subitamente uma menina bochechuda sardenta com uns dez anos se aproxima, levando na mão algo invisível, mas evidentemente precioso.
"Você sabe", ela perguntou sem rodeios, "se a estrela-do-mar prefere água quente ou fria?"


Ela aparecerá bastante por aqui.

domingo, 15 de março de 2009

Faz um tempo eu quis...

Canção pra você viver mais
Pato Fu


Nunca pensei um dia chegar
E te ouvir dizer:
Não é por mal
Mas vou te fazer chorar
Hoje vou te fazer chorar

Não tenho muito tempo
Tenho medo de ser um só
Tenho medo de ser só um
Alguém pra se lembrar
Alguém pra se lembrar
Alguém pra se lembrar

Faz um tempo eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais
Faz um tempo eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais

Deixei que tudo desaparecesse
E perto do fim
Não pude mais encontrar
O amor ainda estava lá
O amor ainda estava lá

Faz um tempo eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais

(...)